Amanhã quero acordar olhando pra mim. E curtir esse momento pela escolha daquilo que me encara. E como eu não refletiria? Quando vejo que aquele faz muito mais do que iluminar os meus caminhos. Sou faminto por ele, sou faminto pelos pequenos momentos em que eu consigo me perguntar o porque de eu estar fazendo isso.
Isso o que? Estar olhando o sol por traz de uma cortina. Porque precisamos de um espelho pra nos ver realmente. As feições são tão fictícias quanto a cortina em minha janela. Os meus olhos são tão superficiais quanto a ousadia de querer me esconder de mim mesmo. E o espelho é tão dependente de mim quanto esses que se dizem conhecedores da verdade à qual eu me recuso em ajoelhar.
E me silencio, gritantemente. Mas os meus gritos são tão silenciosos quanto essa fuga de meus sonhos ao fechar os meus olhos. Pois eu tenho medo que estes sonhos sejam o meu futuro...porque eles vem e veem indiscriminadamente. Eles vem a mim como uma abstinência ao drogado que se vangloria da liberdade pútrida a que ele se atola. E eles veem em mim muito mais do que eu mesmo enxergo. Me dão vontade de rir escondido debaixo desses panos da realidade sufocante. Mas me dão vontade de morrer quando estes me deixam ao léu de minhas próprias escolhas.
Por isso eu digo, a mim e aos que querem ouvir, do "eu" que não pode-se dizer que é eu: eu te obrigo a sonhar, eu te obrigo a nunca dar valor ao presente, que te trucida, mas ao futuro, que o aguarda. Eu te obrigo a morrer antes que você se arrependa de ter vivido. E, nos seus sonhos, a vida e a morte serão tão inúteis quanto essa busca obstinada pelo futuro, prefácio aos seus sonhos, eu lírico à sua vida.
E como sua, nada mais glorioso sonhar ela, viver nos seus sonhos, porque a vida é gloriosa, e o sonho nada mais é do que a própria. E isto me deixa às ilusões, e eu sou tão inútil quanto à realidade, sonho dos outros que dormem acordados. E sou você sonâmbulo na frente do espelho. E você me obriga a ser os seus olhos, fúteis, a ser o seu espelho, sombrio, o seu sol por trás da cortina. Eu sou aquele que simplesmente explica a inutilidade da lei dos fortes, porque você já é ela, eu sou o você que dorme, e, quando acordar, você se sentirá fadado a viver, e só se obrigará a viver antes que morra arrependido. Porque morrer é cômodo demais.
Tic-Tac, Tic-Tac
O tempo passa, olha a hora
Um alvorecer de mais um dia
E o sepultamento inevitavelmente irredutível
De mais um pôr-do-sol
Que é o bem feito do inexistente
Apenas bem feito para uns,
Feito do invisível para outros
Como um calote eterno da vida
Passar para trás o que não passou
Mas seria tolice pensar que o tempo foi feito para o homem
Humano, apenas mais uma obra do mistério
Existente entre a humanidade e a verdade absoluta
Só resta esperar...
Apenas o alvorecer de mais um dia
Siga o sol se tiver curiosidade
Feche os olhos
Talvez lhe abstenha da liberdade,
De escolher o único caminho possível
O sol, sábio, em seu trono cósmico,
Continuará sua viajem, zombando
Da ignorância do homem, que se esconde
Das únicas coisas que realmente lhe pertencem
Como um efeito colateral da existência:
- A vida e a morte
Há 14 anos
