Eu, tu, filhos da terra. E me pego na mais profunda reflexão, sobre sóis e geadas que me faltam. A minha infância cinza careceu de hipérboles e hematomas. Os portões só abriam caminho aos carros e cães maltrapilhos. A fantasia, minha única inseparável companheira, deu cores aos simples insetos que habitavam o nosso pequeno jardim, alegoria aos sonhos de uma criança que não queria saber os limites do real. Sou grato aos meus pais, que não enfiaram nenhuma merda em minha cabeça além das que uma cidade, podre vilã, proporcionava em noites terríveis, de sirenes e aviões, dos degenerados o perdão ao caótico ir-e-vir de aço e esperanças. Porque a cidade era linda. O marulhar da chuva ou o das poucas árvores se ocupavam de me acalentar, a alguém incrédulo atrás de um vidro embaçado, ou um gato, livre, a ulular lamentosamente à lua que fios e antenas não conseguiam esconder.

Cabe aos capazes unir deste mosaico as cores, a que tua infância tanto coloriram, em graciosa nostalgia às notas de um velho violino, ao misturar bucólico de histórias de uma pequena vila, perdida do mundo. E resta nos perdemos nele.

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