Arrume algo pra fazer. Que valha a pena, é claro.
Ele descansava como quem saboreia o ledo aroma das orquídeas, suas tentações, suas consolações ao café que esfriou e ao sol desejado, e as nuvens pareciam ser sua única dúvida. E a chuva era o único segredo, contado às flores, e tentava tirar delas, mas só conseguia o silêncio. E sempre descansava, e sempre se cansava, no que parecia ser sempre o primeiro beijo à bela amada, parábola alada, que só aceitava os olhares, e se deliciava com os suspiros. Delicada dama, ao mesmo tempo que tão sucinta em suas vestes corolas. A esmo que ele só servisse para admirá-la, divino capricho, porque a odiava. A odiava justamente pelos seus segredos, guardados a sete chaves.

E não sonhava, e se cansava como um velho de suas doenças. E queria descansar. Mas não podia. Algo mantinha seus olhos abertos. Algo mantinha as flores em seu doce púlpito, aberto como os olhos, a janela ao correr das estradas de sóis, luas, nuvens e segredos. E lá continuava ela.

A insonia garantia sonhos que alimentavam a sabedoria de não se perguntar mais do que o pobre à flor. E eram sonhos só de respostas, e eram as dúvidas apenas o esquecimento. E o tempo o fez cego. Os olhos mortos agora não viam, eram a dor inata às flores, eram o torpor fadado aos homens. Os entorpecidos se tornaram felizes, às custas dos que beijaram a flor, e se tornaram elas, seus cúmplices e seus aprisionados. Eles abriram os olhos, beijaram a flor, abriram a janela, às vistas dos cegos, e ao correr nas estradas de sóis, luas, nuvens e segredos, se tornaram eles, e se perderam, para sempre.
Eu, tu, filhos da terra. E me pego na mais profunda reflexão, sobre sóis e geadas que me faltam. A minha infância cinza careceu de hipérboles e hematomas. Os portões só abriam caminho aos carros e cães maltrapilhos. A fantasia, minha única inseparável companheira, deu cores aos simples insetos que habitavam o nosso pequeno jardim, alegoria aos sonhos de uma criança que não queria saber os limites do real. Sou grato aos meus pais, que não enfiaram nenhuma merda em minha cabeça além das que uma cidade, podre vilã, proporcionava em noites terríveis, de sirenes e aviões, dos degenerados o perdão ao caótico ir-e-vir de aço e esperanças. Porque a cidade era linda. O marulhar da chuva ou o das poucas árvores se ocupavam de me acalentar, a alguém incrédulo atrás de um vidro embaçado, ou um gato, livre, a ulular lamentosamente à lua que fios e antenas não conseguiam esconder.

Cabe aos capazes unir deste mosaico as cores, a que tua infância tanto coloriram, em graciosa nostalgia às notas de um velho violino, ao misturar bucólico de histórias de uma pequena vila, perdida do mundo. E resta nos perdemos nele.
Esta linha de pensamento, infelizmente, reina quase que unanime nas cabeças de nossa contemporaneidade. "Para que estudar o passado se o importante é o presente?", "...o ‘aqui’ e o ‘agora’ parecem ocupar todas as atenções...". Isso ilustra os jovens cada vez mais imediatistas, de caráter cada vez mais apressado e que cada vez mais julgam o "velho" como descartável. O mundo não lhes pede mais paciência, oferece tudo à velocidades inimagináveis. E eles só esperam isso dele.

O mundo eletronizado só quer o rendimento preciso, sem erros, e, por consequência, sem diferentes considerações que poderiam levar a ele. Se quer o automático e que as cabeças que sustentam ele também sejam automáticas, instantâneas. O contrário disso traz divergências, polêmicas, sustentação ao erro, ao acerto, e opiniões diferentes, o que seria completamente insustentável pelos alicerces dos ditames que nos regem. Estes querem o acerto limitado, a conquista do objetivo que eles oferecem, apenas. Pois se isso não acontecer, algo perigoso à hegemonia pode nascer, e o ferir perigosamente. E isso só se dará quando as pessoas pensarem.

Pensar dá trabalho, e, sem isso, ler ou escrever não passa de fingimento. São apenas assessórios que podem ser substituídos pela capacidade pensante. O problema é que o ser humano esquece. E ler ou escrever, são, como tão importantes, assessórios a nós que sofremos com o tempo. E aí entra a história, o ensino dela e as reflexões subsequentes.

Há muitos anos, quantos vocês quiserem, surgiram coisas que mudaram o modo de viver. Coisas que revolucionaram pensamentos, refutaram paradigmas, criaram conceitos e preconceitos. Viu-se a necessidade de registrar esses momentos, seja por memória, documentos ou monumentos. E nem sempre as coisas foram lembradas de propósito. Isso alcançou todos os objetivos possíveis, desde a absorção daquilo que se conquistou até a lamentação perdurada aos póstumos. Na verdade, as intenções foram outras, mas a história mostra que essas foram as consequências. E tudo faz parte de uma gama entrelaçada de fatos e interpretações que levam a uma única palavra: identidade. E a história serve ao mesmo tempo como lembrança e amortecimento às dores do homem, formadoras à nossa identidade, berço das próximas gerações e do que elas entenderão como “o que nós somos”.

A questão da identidade é uma coisa séria. Tão perigosamente irresistível. Temos que ter cuidado com tudo aquilo que nos tenta a esquecer dela. Como por exemplo os historiadores mais conservadores, que tentaram a todo custo esconder as mazelas do nosso período ditatorial, ao que eles chamam de revolução. Ou os alemães, que de bom grado apagariam da história o holocausto. Ou os brasileiros, que se envergonham(ou pelo menos deveriam)da barbárie injusta que foi a guerra do Paraguai. E muitos inumeráveis episódios que ou poderiam ser esquecidos, relembrados, exaltados, ou atenuados à mercê dos caprichosos que se beneficiariam com isso, ou para a pior lamentação dos prejudicados. A identidade, como algo tão mutável e intrínseco ao homem, só poderá ser alcançada quando o exercício para ela for igualmente empregado sob todas as proporções. E ela nunca será alcançada, e, por isso, àqueles que acham que a encontraram, eu digo apenas que estes se conformaram, se estagnaram no curso da história, que só muda porque o homem também muda, num eterno revolver de ideias.

O ensinar da história só serve para nós não esquecermos de que somos capazes de mudar, sobre os erros e os acertos da história humana. Pois quando todos forem felizes, a história poderá se perder, porque o futuro vindouro não temerá mais aqueles que se dizem suficientes, ele já os terá. E isso poderá significar tanto a resolução quanto o pico de toda a podridão humana - ou a profunda conformação a tudo, ou o fim de todos os problemas, o que já seria a conformação, porque os problemas nunca terminarão. Quando terminarem, o ser humano também não existirá, e a história e tudo que é humano também.
Amanhã quero acordar olhando pra mim. E curtir esse momento pela escolha daquilo que me encara. E como eu não refletiria? Quando vejo que aquele faz muito mais do que iluminar os meus caminhos. Sou faminto por ele, sou faminto pelos pequenos momentos em que eu consigo me perguntar o porque de eu estar fazendo isso.

Isso o que? Estar olhando o sol por traz de uma cortina. Porque precisamos de um espelho pra nos ver realmente. As feições são tão fictícias quanto a cortina em minha janela. Os meus olhos são tão superficiais quanto a ousadia de querer me esconder de mim mesmo. E o espelho é tão dependente de mim quanto esses que se dizem conhecedores da verdade à qual eu me recuso em ajoelhar.

E me silencio, gritantemente. Mas os meus gritos são tão silenciosos quanto essa fuga de meus sonhos ao fechar os meus olhos. Pois eu tenho medo que estes sonhos sejam o meu futuro...porque eles vem e veem indiscriminadamente. Eles vem a mim como uma abstinência ao drogado que se vangloria da liberdade pútrida a que ele se atola. E eles veem em mim muito mais do que eu mesmo enxergo. Me dão vontade de rir escondido debaixo desses panos da realidade sufocante. Mas me dão vontade de morrer quando estes me deixam ao léu de minhas próprias escolhas.

Por isso eu digo, a mim e aos que querem ouvir, do "eu" que não pode-se dizer que é eu: eu te obrigo a sonhar, eu te obrigo a nunca dar valor ao presente, que te trucida, mas ao futuro, que o aguarda. Eu te obrigo a morrer antes que você se arrependa de ter vivido. E, nos seus sonhos, a vida e a morte serão tão inúteis quanto essa busca obstinada pelo futuro, prefácio aos seus sonhos, eu lírico à sua vida.

E como sua, nada mais glorioso sonhar ela, viver nos seus sonhos, porque a vida é gloriosa, e o sonho nada mais é do que a própria. E isto me deixa às ilusões, e eu sou tão inútil quanto à realidade, sonho dos outros que dormem acordados. E sou você sonâmbulo na frente do espelho. E você me obriga a ser os seus olhos, fúteis, a ser o seu espelho, sombrio, o seu sol por trás da cortina. Eu sou aquele que simplesmente explica a inutilidade da lei dos fortes, porque você já é ela, eu sou o você que dorme, e, quando acordar, você se sentirá fadado a viver, e só se obrigará a viver antes que morra arrependido. Porque morrer é cômodo demais.

Tic-Tac, Tic-Tac
O tempo passa, olha a hora
Um alvorecer de mais um dia
E o sepultamento inevitavelmente irredutível
De mais um pôr-do-sol
Que é o bem feito do inexistente
Apenas bem feito para uns,
Feito do invisível para outros

Como um calote eterno da vida
Passar para trás o que não passou
Mas seria tolice pensar que o tempo foi feito para o homem
Humano, apenas mais uma obra do mistério
Existente entre a humanidade e a verdade absoluta
Só resta esperar...
Apenas o alvorecer de mais um dia

Siga o sol se tiver curiosidade
Feche os olhos
Talvez lhe abstenha da liberdade,
De escolher o único caminho possível

O sol, sábio, em seu trono cósmico,
Continuará sua viajem, zombando
Da ignorância do homem, que se esconde
Das únicas coisas que realmente lhe pertencem
Como um efeito colateral da existência:
- A vida e a morte
Mausoléu de ideias

Sobre o chão que piso, descanso inerte. As ideias custam a florescer em minha cabeça tão preocupada em esquecer os pensamentos que a assolam. Deixei o trabalho para as horas insones que me fadaram a essa ligeira incapacidade de controla-los. E esqueci-os. Mas eles me perseguiram, sobrepondo as palavras que nunca foram ditas, o chão que eu nunca andei, o sono que eu nunca tive. Sou um eterno insone admirador aos ecos do que foi apenas uma projeção dos meus sonhos. Sou um perdido na caverna das sombras fraudulentas aos meus olhos ingênuos.

Um dia desses li a carta de um ébrio. Ele me disse coisas sobre o amor, sobre a vida. Ele possivelmente não sabia a felicidade que é viver sobre o estigma da loucura que nos impede de parar na pista. Continuar sempre em frente, se ferindo nos obstáculos, se curando simplesmente na certeza de que um dia no final de sua curta vida, ele se orgulhará desse amor, dor infinita somente aos crédulos que se satisfazem com os farelos de seus desejos. Pois eu aprendi a amar essa dor. Não me falta a sensatez, pois amo o amor.

Tanto não descobri para quem seria este desabafo, que constatei que eu mesmo sou o ébrio. E eu mesmo sou a plateia crítica e insana de mim. Não sei aonde fica o meio, mas enquanto eu estiver na estrada, com a lua acima de mim, eu terei certeza que um dia eu me agradecerei por ter buscado o seu final, o meu final, a apoteose de mim à morte de minha curta vida, e à dor infinita que eu aprendi a amar. E isso me manterá na posteridade.
Como um palpitar frenético, as ideias recém criadas são estendidas ao desabrigo inútil de meu sombrio contexto, como bolhas hostilmente abatidas, por minha vida vã, de rotinas frustradas tentando alcançar o que no dia seguinte poderá ser o alívio de esquece-la. E essas ideias engajam-me na busca pelo significado desse vão, ilusório dito a cura à dor do conhecimento.

O saber dói, e a ignorância me parece tão bem-vinda quanto esse trapalhado questionamento à ordem que nos rege. É por isso que fujo dessa confusão cíclica unida ao conformismo tão íntimo ao breu da ignorância. Eu busco essa dor, masoquístico. Sou subjugado por essas leis, incrédulo. E envergonhado quando repouso sobre tamanha obra remota aos tempos de quando ainda se pensava. E saber que daria nisso.

Quando me vejo na podridão que me meti, poderia me culpar de não ter me enforcado no cordão que me foi oferecido ainda em ventre, antes de conhecê-lo, o amor por viver que me leva a crer que ser feliz já basta. E esse amor nasceu antes da razão, que não existiu até que um louco se uniu a outro para sobreviver. A competição é natural ao ser humano, e isso haverá de sustentar-se a partir do ponto que desuniu o homem de sua natureza, a vontade de ser feliz, quando simplesmente já o era. O homem está predestinado a ser livre, e o é por que o escolheu. Os animais não escolhem ser livres, eles simplesmente já são. Mas o homem não está livre de si, ele precisa viver, ele precisa sobreviver. E ele escolheu isso. E aquilo que um dia fez ou se tornou o que somos hoje, estava destinado a escolher a liberdade póstuma. Nós estamos fadados a sermos felizes. E lutamos por isso, e estamos presos a isso.

E tantos tentaram alcançar essa essência da liberdade. Mas eu parabenizo apenas os mortos. Estes sim estão livres. Enquanto eu não morro, eu busco a liberdade que eu quero pra mim, e não a que os outros me oferecem. Por que eu busco o caos, enjoei desse bando de ovelhas seguindo sua fila, que defecam pela boca receitas para viver, e defecam ao chão, me obrigando a pisar em suas merdas pra tentar fujir desse curral. E eu, ovelha negra, só quererei ser livre quando em vida eu também o ser, simples e puramente tal que só eu consiga.

E que se dane os monumentos, os antigos, a sua existência não faz diferença para mim. Ou se fizerem, maldita generalização. Eu quero a hiper bole da hipérbole, o caos em mim que tento reescrever em malditas palavras, difamantes ao caos de meus pensamentos, difamantes à existência de tantas limitações, de um necessitado ser humano que sou, à simples felicidade que eu quero ter.